segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

VELHOS AMIGOS


Rafael Hernandez Uriba, consagrado escritor colombiano, se retirara para o coração da Espanha já a altura dos seus setenta e cinco anos. Berrava a todo instante que escolhera aquele lado do mundo, para morar e viver o último capítulo de sua biografia. Havia dez anos, anunciava estar vivendo os derradeiros dias de sua vida. Parecia distante ainda, que fosse ceder ao tempo. Mantinha-se firme. Era barbatão, dizia, e faria jus ao leite mamado até aos sete anos, quando foi ameaçado pela mãe de publicar que vivia pendurado em seus peitos. Abandonou o que era mais um hábito do que uma necessidade.
Mesmo doente, empreendera a viagem após muito tempo de reflexão. Considerou assim: a tranqüilidade que a fama lhe dera no âmbito material roubara no que dizia respeito a sua vida comum. Ninguém vive como um imortal. É uma desgraça viver da fama e ser impedido, por ela, de viver.
Não podia sair às ruas sem que uma multidão, sempre a mesma, por mais diferentes que fossem os rostos, em qualquer parte do mundo, o cercasse. Esse assédio havia sido importante durante todos os anos de glória e juventude, mas perdera a oportunidade. Amadurecera. O prazer obtido pelo reconhecimento de sua obra parecia reclamar isolamento. Recluso, pensava, estarei protegido da língua e do burburinho. Estou farto, queixava-se à mulher e aos amigos, dentre eles Rodrigues de Levada, seu editor.
Madrid. Rosalinda Uriba, a única mulher que lhe pertencera depois de Carmensita Torres, nascera entre as touradas da arena principal e a corrida de San Sebástian de Los Reyes. Sua mãe, grávida de oito meses da menina singular de sua vida, andava de uma festa a outra em companhia do marido, a quem seguia em obediência ao voto matrimonial, aonde ele fosse. O velho escritor partiu, levando a mulher, um criado, alguns livros e o amor intacto desde a juventude.
Lá compraram uma casa de oito cômodos que se parecia com a primeira que os abrigou após a fuga para o casamento. Era suficiente para Rafael Hernandez e a companheira de sua vida, desde o colegial que fizeram juntos na Colômbia. Naquele tempo se conheceram, namoraram, fugiram e se casaram contrariando a vontade dos pais. Lembravam esse fato com freqüência, como para alimentar a amizade inaugurada numa época de cumplicidades. Abandonado por Carmensita, Rafael se refugiara nos braços carnudos e sardentos de Rosalinda.
Agora, no segundo refúgio, optaram por um padrão modesto de construção para atender ao desejo de viverem uma vida que fosse a mais natural possível.
Madrid. O amor da velhice parecia sossegado, porém mais vivo e bem estabelecido. No entanto, os últimos dias da mulher chegaram sem avisar, bem antes dos seus. Comiam ostras com limão e sal na pequena varanda dos fundos. Rosalinda sentiu um engasgo. Desesperado o escritor bateu em suas costas, embora soubesse que esse procedimento de nada adiantava nesses casos. Foi a única coisa que lhe ocorreu fazer, além de berrar pelo criado que pronto lhe assistiu. Não adiantou. Da varanda para o céu, foi um pulo. Rosalinda foi sepultada em silêncio e lhe acompanharam apenas o marido, o criado e os funcionários da empresa funerária. Uribe entregou-se a um luto metódico, mas com data para terminar. Seria na festa de San Sebastian para qual faltavam nove meses. Uma gestação, pensou. Durante este período pensou no que deveria fazer e no que não deveria. Ao cabo do tempo determinado estava decido. Viveria para sempre o luto extra-oficial, sem amarguras, mas em silêncio. Vendeu a casa e partiu com a mesma mudança que viera da Colômbia para Madrid subtraída a mulher.
Mudou-se para Cartagena. A casa, nada possuía que lembrasse a modéstia da morada anterior. Resolvera cercar-se da pompa que ainda podia ter e o pretexto seria esquecer a mulher que, de tão simples, assemelhava-se à casa anterior.
Cinco anos de Espanha e a solidão substituíra a companhia da mulher. A nova casa estava plantada em frente ao mar a que chamava de meu deserto líquido. Mantinha uma rotina tão bem planejada que tudo parecia automático. Seus hábitos eram simples e conversava apenas com o criado a quem ensinava literatura e matemática, sem grande resultado. Durante o tempo em que fora jornalista conheceu Escobar que lhe assistia com fiel disposição.
Certa feita, como de hábito, Rafael Hernandez estava sentado em sua cadeira de balanço perdido em meio à floresta de lembranças e presságios que invadia seu olhar distante. Olhando-o assim, que o visse pensava que Rafael estava contemplando o horizonte, mas certo era que não enxergava o que via.
A campainha tocou. O escritor permaneceu imóvel como estava havia horas. O assistente foi até à porta, entreabriu-a meio palmo e reparou no homem que estava plantado ali, feito uma árvore centenária. Usava um chapéu coco cinza, camisa branca e calça da mesma cor do chapéu. As sandálias, de tiras entrelaçadas, eram de couro cru.
- O que o senhor deseja? Perguntou o assistente olhando o homem dos pés a cabeça, indo e vindo com os olhos.
- Quero falar com Rafael Hernandez Uriba.
- Quem devo anunciar?
- Um amigo.
O criado entrou após fechar a porta na cara do visitante e postou-se às costas do velho escritor. Um homem com a experiência de Rafael enxerga por mais olhos do que aqueles que trás no rosto. Mesmo de costas e sem virar o rosto, viu o assistente de pé e, antes que dissesse alguma coisa, interpelou.
- Quem vem lá?
- Um amigo.
- Não tenho amigos.
- Um senhor.
- Não existem senhores, já lhe falei. Apenas dois tipos existem sobre a terra. Os filhos das putas e suas mães. Volte e pergunte que filho da puta é ele.
Repetiu o mesmo procedimento anterior e disse:
- O senhor Rafael pergunta. Que filho da puta é o senhor?
- Diga-lhe que sou o filho da puta que o encontrou em Cuba, na reunião do partido, em outubro 1958.
O assistente transmitiu, na íntegra, o que lhe dissera o visitante. Rafael, durante todo o tempo permanecera impassível, movendo apenas os lábios, e só o suficiente para pronunciar palavras compreensíveis. Sequer movia os olhos ou pestanejava. Nessa condição enviou mais uma vez Escobar à porta.
- Diga-lhe que lá só havia filhos da puta em 58 e pergunte: Qual daqueles filhos da puta está em minha porta?
Em pouco tempo estava de volta.
- Ele disse que é o filho da puta que fez a capa do primeiro livro do senhor publicado em língua não latina.
Hernandez Uriba foi movido por uma sensação estranha. O inesperado ativara a ignição dos seus ímpetos e, por um instante, fugiu a terra de sob os seus pés. Saltou da cadeira como se estivesse pegando fogo e disse.
- Caralho! Esse filho da puta não pode estar aqui.
- Está lá fora, senhor. Disse o assistente com a placidez de um monge sem ao menos olhar para o escritor.
Rafael sequer percebeu os estalos que deram os seus joelhos. Saiu em disparada e, passando próximo à espada que pertencera a seu pai e que levava aonde fosse, tomou-a em sua mão esquerda. Dirigiu-se a porta e abrindo-a toda, berrou.
- Se passar da soleira, eu parto você ao meio.
- Mas que mania feia, Uribe! exclamou o visitante.
O velho escritor atirou-se para rua e foi abraçar o amigo, mirado pelos olhares extraterrenos, que vieram apenas para espiar um homem de pijama listrado abraçando outro em plena calçada. Entraram os dois ainda abraçados. Era o único amigo que ainda estava vivo no coração de Uribe, além do grande comandante.
- A amizade tem sua mobília, disse o velho artista entrando na casa que mais parecia o coração do amigo.
- Quem é para dizer isto sou eu, que de nós dois, sou o único escritor presente.
Chegando ao lugar onde o aguardava a cadeira de balanço, perguntou:
- Uísque?
- Das merdas, a menor. Uísque. Você não perde os maus hábitos, Rafo. Primeiro quis me partir ao meio. Depois me oferece este escocês de 5ª e por falar em bebida de baixa categoria, como vai o meu livro predileto?
- Por causa daquela capa que você fez, o livro não vendeu um exemplar sequer.
O livro fora um sucesso de vendas, ambos sabiam disso, mas não perderiam jamais oportunidade como esta.
- Eu sabia que você era um mau vendedor. Agora só faço capas para autores que vendem bem. Assim os meus desenhos não permanecerão no ostracismo. Meus trabalhos não precisam ser tão desconhecidos quanto eu. E a vida?
- Chega um tempo, pintorzinho, em que a morte é uma visita esperada. Um amigo da família.

1 Comentários:

Blogger Lucia Macêdo Leitao disse...

Você é um artista completo. Adimiro e curto tudo que você faz, como artista e como pessoa.
Esse texto é uma prova real de todo elogio que você merece receber( sem bajulação).
Beijão
Lucia Elizabeth

17 de janeiro de 2008 às 16:34  

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